O SEGREDO DE KELLS (Brendan and the Secret of Kells) (Fança/Bélgica/Irlanda) (2009)

 Na Irlanda do século VIII, em meio à expansão normanda, os monges da abadia de Kells tentam construir uma muralha para se protegerem dos inimigos. A chegada do irmão Aidan perturba a rotina de Kells, deixando o abade Cellach profundamente contrariado, especialmente porque seu sobrinho, o jovem Brendan, parece muito mais interessado no lendário Livro de Iona do que na construção da muralha. Dizem que o Livro de Iona trará luz a um mundo mergulhado nas trevas e que ele trará de volta a esperança há muito perdida. Mas, para isso, ele precisa ser terminado e Brendan parece ser o escolhido para a tarefa. Ele terá a ajuda de Aidan e outros amigos, mas talvez isso não seja suficiente para convencer seu tio a deixar de lado a muralha. Assisti O Segredo de Kells num festival de cinema infantil promovido pela rede Cinemark. Trata-se de uma fabulização bem feita em cima de uma história real. O Livro de Kells é considerado um dos mais importantes exemplares da arte sacra medieval irlandesa. Trata-se de uma compilação dos quatro evangelhos, ricamente ilustrada com gravuras e iluminuras de alto grau de elaboração. Era usado mais para a liturgia do que para o estudo, uma vez que foram encontrados vários erros de cópia jamais corrigidos e a composição das páginas obedece a um projeto estético, em vez de facilitar a leitura. Foi produzido entre os séculos VIII e IX, época em que os normandos (mais conhecidos como vikings) empreenderam duros ataques à Europa Ocidental. A animação mistura elementos simples de animação tradicional, com traços bem infantis, mas os recursos de computação gráfica são bem perceptíveis a observadores mais atentos. O mérito da equipe técnica foi ter harmonizado com competência a animação tradicional e a computadorizada, de modo que uma não destoa da outra. Também é muito boa a composição de som. Tudo na medida certa, ajudando a contar a história. O roteiro trabalha muito bem com o imaginário medieval, especialmente o misticismo católico de uma época em que não havia muita distância entre imaginação, fé cristã e superstição pagã (paganismo entendido aqui como uma generalização dos cultos camponeses resultantes da mistura do politeísmo romano com o xamanismo germano e o cristianismo popular). Esse trabalho é tão bem feito que o final pode ser interpretado de muitas maneiras diferentes, mesmo que a lógica e um bom conhecimento de história apontem para um único caminho. Mas acho que nem todos têm um historiador de plantão para explicar o final, muito menos um historiador especializado em História Eclesiástica.
Escrito por Makoto® às 15:39:32
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