A PARTIDA (Okuribito) (Japão) (2008)


Frustrado com a carreira musical, Daigo Kobayashi (Masahiro Motoki) volta à cidade natal com a esposa Mika (Ryoko Hirosue) e aceita, em segredo, trabalhar como preparador de cadáveres ao lado do mestre Ikuei Sasaki (Tsutomu Yamazaki). Inicialmente a contragosto e, mais tarde, enfrentando a rejeição de amigos e da própria esposa, Kobayashi se descobre um mestre na arte de preparar os corpos para a partida para o outro mundo. Para realmente entender A Partida, é preciso conhecer um pouco da obsessão japonesa por rituais. Entre os japoneses mais tradicionais, há todo um conjunto de gestos e palavras que devem ser usados de maneira rigorosamente correta. Isso se aplica à preparação de alimentos, à conversa com o vizinho que encontramos na rua, à preparação do chá e, claro, ao funeral. Kobayashi e Sasaki são mestres na arte de oferecer o mais respeitoso tratamento a um corpo que logo será cremado. Todos os gestos são cuidadosamente ensaiados para que a família do falecido possa se despedir com dignidade do ente querido. É, portanto, um ofício muito nobre. Mas isso não significa que a sociedade aceite bem esses profissionais. A Partida é um filme que tem muitos momentos marcantes. Alguns nos levam ao riso, outros nos levam à reflexão sobre o sentido da vida e da morte. É um filme muito triste, mas é nos momentos mais tristes que também estão os momentos mais belos (porque a arte tem esse poder mágico de retratar a tristeza com beleza). A trilha sonora é muito simples, mas muito adequada, assim como são perfeitamente colocados os momentos de silêncio. Também são muitas as imagens que fazem referência a símbolos de longevidade na cultura japonesa, algo que talvez passe despercebido ao olhar ocidental. Quanto às legendas, não se preocupe se parece que os personagens falam muito mais do que aparece no letreiro. É assim mesmo. Observação importante: é um filme para se ver ao lado das pessoas com as quais queremos envelhecer. E, se você é do tipo sensível, um lenço é indispensável.
Escrito por Makoto® às 22:14:06
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SAPERE AVDE X
LIBERDADE, IGUALDADE, FRATERNIDADE  Tomada da Bastilha, por Pierre Gabriel Berthault baseado em Jean-Louis Prieur
Oficialmente, a Revolução Francesa teve início quando o Terceiro Estado (a Plebe) se separou dos Estados Gerais (o Parlamento francês) para elaborar a primeira Constituição francesa. O difícil é dizer quando isso realmente aconteceu. O ano era 1789. O primeiro pronunciamento nesse sentido se deu no dia 10 de junho. Essa moção foi aprovada pelo Terceiro Estado no dia 17, aprovando-se, também, um convite aos representantes dos outros dois estamentos para que integrassem a Constituinte. No dia 20, foi feito o Juramento da Quadra de Tênis, no qual a esmagadora maioria dos membros do Terceiro Estado e parte do Primeiro Estado (o Clero) formalizaram o compromisso de só se dispersarem quando a Constituição estivesse pronta. No dia 27, o partido monarquista desistiu da resistência e se uniu ao movimento, que assumiu o nome de Assembléia Nacional Constituinte em 9 de julho. No dia 14 de julho, temendo que as tropas estacionadas nos arredores de Paris recebessem ordem de Luís XVI para fechar a Assembléia, o povo de Paris iniciou uma revolta que teve como ponto alto a tomada da Bastilha, fortaleza que funcionava como depósito de armas e munições, além de servir de carceragem para presos políticos. A Revolução Francesa é considerada o marco fundador da Era Contemporânea. Para os românticos, foi o momento em que o povo assumiu, pela primeira vez, a responsabilidade de dirigir seu próprio destino e de construir um Estado que realmente representasse os interesses gerais. Para os céticos, foi apenas mais um dos muitos momentos em que uma elite sócio-econômica manobrou a massa descontente para obter privilégios. Muita coisa indica que os céticos têm razão, mas é preciso considerar uma coisa muito importante: por mais que tenha sido enganada ou que fosse incapaz de compreender a profundidade do significado de suas ações, a massa revolucionária francesa tem muito a nos ensinar sobre o que é a verdadeira cidadania. É essa visão romântica que quero analisar hoje. Ao longo da maior parte da história, Razão e Ciência foram consideradas sinônimos. Desde o século XII, a intelectualidade ocidental se preocupou em valorizar a Razão em detrimento da Fé. Entre os iluministas dos séculos XVII-XVIII, a Fé era vista como um absurdo irracional que servia apenas para ocultar a verdade, que só era acessível àqueles que tivessem uma visão de mundo racional, ou seja, baseada em conclusões a partir da análise dos resultados de experiências objetivas ou, no mínimo, de senso crítico. Foram esses intelectuais os responsáveis pela formulação do trinômio revolucionário — liberdade, igualdade, fraternidade. Liberdade é a possibilidade de fazer qualquer coisa que a vontade determine, desde que humanamente possível. É, também, um direito natural, portanto, inalienável — um indivíduo não pode dispor da liberdade de outro — e imprescritível — o indivíduo não a perde por não exercê-la. Ao se descartar o discurso da determinação divina no nascimento, não se encontra nenhum argumento sólido para que se justificasse a precedência de alguns indivíduos. Assim, todos são igualmente livres por natureza e, portanto, nenhum indivíduo tem, por si só, o poder de impor sua vontade a outros. Se não há determinação divina de qualquer espécie, qual é, então, o propósito da vida de uma pessoa? Felicidade pura e simples. E, se somos todos livres e iguais, todos temos direito de fazer tudo aquilo que consideramos necessário para alcançarmos a felicidade como a entendemos. O absoluto exercício da liberdade individual, porém, torna-se impossível diante dos inevitáveis conflitos de vontades que existem numa sociedade. Assim, a absoluta liberdade só é possível ao indivíduo absolutamente isolado. Mas o indivíduo absolutamente isolado perde a condição humana, já que grande parte das características que nos definem como humanidade são adquiridas por convívio com outros seres humanos. Se queremos preservar nossa condição humana, devemos, portanto, aprender a viver juntos sem permitir que os conflitos de vontades resultem em injustiças, ou seja, precisamos fazer com que, em situações de conflitos, prevaleça aquilo que trará benefício a um número maior de indivíduos. Um indivíduo realmente sensato é, portanto, aquele que coloca os interesses públicos acima dos particulares, uma vez que compreende que a limitação parcial de sua liberdade individual traz muito mais benefícios. Uma sociedade formada por esses indivíduos sensatos não estaria livre de conflitos ou de problemas, mas certamente teria muito mais facilidade e possibilidade de resolvê-los. Também não estaria livre de ter em seu meio indivíduos descontentes com as decisões tomadas pelo conjunto, mas mesmo esses descontentes, sendo racionais e, portanto, reconhecendo que o benefício comum é mais importante que o particular, teriam uma predisposição a aceitar as decisões da maioria. Além disso, uma sociedade formada por indivíduos sensatos certamente escolheria os melhores entre eles para dirigirem o Estado, que, portanto, teria como prerrogativa o bem público. A Democracia é, portanto, um regime de igualdade entre os cidadãos, tanto em direito quanto em responsabilidade, mas ela só é legítima quando há, também, uma República legítima, esse regime em que o bem público é colocado acima do interesse particular. E essa República legítima só pode existir numa sociedade em que o cidadão tem espírito verdadeiramente republicano, que é a plena consciência de que a liberdade do outro é tão importante quanto a sua própria, a ponto de valer a pena impor a si mesmo uma disciplina rigorosa sobre suas ações. Portanto, o cidadão realmente republicano é aquele que se considera responsável por proteger a liberdade de todos e que está disposto a sacrifícios por isso, porque sabe que, em contrapartida, sua liberdade também é protegida pelos demais cidadãos republicanos legítimos. Ao lutar pelos outros, luta, também, por si. É pouco provável que a massa revolucionária francesa tivesse tudo isso em mente quando tomaram a Bastilha. Certamente não era nada disso o que muitos dos que se colocaram na liderança da Revolução realmente desejavam. Mas, por mais que atos falem muito mais que palavras, não podemos simplesmente ignorar as palavras por serem ditas de maneira mentirosa, porque o sonho não pertence aos mentirosos que o anunciam, mas a quem acredita que o sonho pode ser real. Nada a perder. Tudo a conquistar.
Escrito por Makoto® às 08:20:15
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