ALEATEORIAS XXX

ODEIO horário de verão! Sei que é importante economizar energia, que o horário de verão tem impacto positivo tanto em termos econômicos quanto ambientais, sei que muita gente gosta da idéia de ter um período de sol mais longo, mas eu simplesmente odeio horário de verão. E isso não é só pela dificuldade de adaptação nos primeiros dias. Primeiro, odeio acordar cedo. Segundo, sou notívago. Terceiro, fico praticamente cego à luz do sol. Quarto, odeio calor. Horário de verão é uma lástima porque tenho que acordar mais cedo do que o habitual nos primeiros dias. Quanto a isso, acabo me acostumando com o tempo, mas esse negócio de sol às 19h é um absurdo para mim.
Esses primeiros dias de horário de verão foram complicados, principalmente para acordar. Além de ter que me adaptar ao novo horário, também há o problema do cansaço acumulado ao longo do ano. Estou me sentindo como uma bateria velha. O efeito memória não deixa mais a carga ficar completa nos fins de semana ou feriados. Mesmo as férias já não têm sido suficientes para eu realmente descansar. Estou sentindo que o tempo de arriar está chegando.
Enquanto não pifo de vez, só um comentário a fazer sobre o caso da menina que foi morta pelo ex em Santo André: “Depois que o barco afunda, todo o mundo sabe como ele poderia ter sido salvo” (provérbio italiano).
Mudando completamente de assunto, semana passada consegui comprar algumas HQs difíceis de se encontrar. Consegui a série completa de Clã Destino, uma das melhores histórias de super-heróis que já vi, escrita pelo grande Alan Davis. Também consegui os 16 volumes da série comemorativa de The Spirit de Will Eisner. Ainda não consegui tempo para ler, mas logo dou um jeito nisso. Também preciosos são os dois volumes do Gibi. O Gibi era um tablóide que reunia vários títulos diferentes. De tão popular, acabou batizando as HQs no Brasil, tradicionalmente chamadas de gibis. Finalmente, o achado mais importante foi uma coletânea do Cabrião, um semanário cômico que circulou em São Paulo no século XIX. Comprei um volume que reúne todas as charges do período de 1866-1867. E paguei só R$ 19,90!!! *Feliz*
E, como não poderia deixar de ser, tenho que comentar o futebol. A reta final do Brasileirão está muito mais interessante do que eu poderia imaginar, a julgar pelo início do campeonato. E quem diria que o São Paulo realmente tem chance de ganhar o terceiro título consecutivo?! Verdade que o Palmeiras ainda é favorito, na minha opinião, mas tem demonstrado uma certa instabilidade tanto de rendimento físico quanto emocional nas últimas partidas. Para mim, Flamengo e Grêmio nunca estiveram entre os favoritos. Aliás, até me surpreende o Grêmio ainda estar se agüentando na ponta. O fato é que o Tricolor Gaúcho fez um bom primeiro turno, mas tem jogado muito mal as últimas partidas e algumas vitórias saíram realmente na sorte. A surpresa é o Cruzeiro. Não acho que tenha time para ganhar, mas, até aí, time por time, só o Palmeiras tem um elenco melhor entre os cinco primeiros colocados. De resto, todos mais ou menos iguais.
Ainda sobre futebol, ainda bem que não teremos mais jogos da seleção brasileira até o ano que vem!
Escrito por Makoto® às 13:12:46
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SAPERE AVDE IX
Este ano optei por trabalhar com provas dissertativas temáticas. No dia da prova, coloco 4 ou 5 temas na lousa, cada aluno escolhe o seu e deve elaborar um texto dissertativo-argumentativo em 5 parágrafos, com acesso liberado a livros, cadernos e qualquer tipo de material de referência, já que é impossível simplesmente copiar o texto de algum lugar. Como exigência, apenas o uso do conteúdo da disciplina de História como evidências argumentativas. Naturalmente, eles devem apresentar sua posição, desenvolver seus argumentos e apresentar uma conclusão coerente.
Alguns alunos gostam desse sistema. Muitos odeiam. E alguns às vezes perguntam como eu desenvolveria cada um dos temas. Desta vez, resolvi aceitar o desafio e desenvolver um dos meus próprios temas de prova (naturalmente, depois da época das provas e com todas as notas já fechadas) dentro dos mesmos parâmetros, ou seja, 5 parágrafos, 50 minutos e com a estrutura de introdução, argumentação fundamentada no conteúdo acumulado do ano e conclusão. O tema que eles mesmos escolheram foi “A violência necessária para a paz”. Levei 35 minutos. É claro que isso é bem mais fácil para mim, já que História é a minha área e tenho muitos anos de bagagem. De qualquer modo, foi uma experiência divertida.
 © Reuters/CORBIS
Qual o preço da paz? (tema de prova do 3.º colegial, 3.º bimestre de 2008)
É lugar comum afirmar que a violência não é o melhor caminho para se resolver disputas ou que a violência apenas gera mais violência. Esse mesmo senso comum afirma que uma pessoa realmente sensata fará todo o possível para preservar a paz e isso em escala micro e macro. Em geral, condenamos a violência porque ela é uma violação, quase sempre injusta, dos direitos de alguém, quando não de todos. Se há algum benefício, costuma ser para muito poucos ou o preço é alto demais. Apesar disso, em mais uma de nossas evidentes contradições como seres humanos, a violência parece ser o primeiro recurso de muitos, tanto indivíduos quanto sociedades.
A história mostra, de fato, que grande parte dos conflitos violentos tem motivação moralmente questionável. Ânsia de poder e riqueza, ideologias de fundamento duvidoso, intolerância ou simplesmente maldade, entre outros tantos motivos e pretextos. É possível concluir, então, que a violência é um traço absolutamente negativo de nossa natureza. Essa mesma história, contudo, mostra que, em vários momentos, o uso da violência foi o único caminho para que se construísse uma realidade (ou, pelo menos, um projeto) mais justa, ainda que o preço a ser pago fosse o sangue de inocentes, até porque a injustiça é uma violência, mesmo quando o cenário se mantém pacífico na aparência. A questão fundamental é, portanto, em que momento a violência se faz necessária? Analisaremos, rapidamente, dois casos específicos que ilustram muito bem o preço que se paga pela ação ou pela omissão: a Revolução Russa de 1917 e a II Guerra Mundial de 1939 a 1945.
Na virada do século XIX para o XX, a Rússia passou por um processo de modernização conservadora. Em termos econômicos e técnicos, o avanço foi inquestionável. Em termos sócio-políticos, contudo, houve estagnação e até mesmo retrocesso. Privação de liberdade de educação e expressão, manutenção de um regime político autoritário e patrimonialista, opressão e repressão violentas foram a regra durante todo esse período. Apesar disso, a população russa procurou todos os caminhos razoáveis de contestação e negociação. Os movimentos mais exaltados de contestação só surgiram com o agravamento da crise econômica devido às guerras. Foi só quando a situação tornou-se insustentável no que diz respeito à sobrevivência e quando todos os canais de negociação foram fechados (situação evidenciada pela morte de civis durante a repressão oficial a manifestações políticas) que a população recorreu às armas para derrubar o regime czarista. O saldo de mortos foi grande dos dois lados e, no entanto, o certo é que a manutenção do status quo também faria um grande número de vítimas, ainda que em menor velocidade e predominantemente no segmento popular.
Em 1941, EUA e Inglaterra assinaram a Carta do Atlântico, documento no qual reconheciam a responsabilidade pelo início da II Guerra Mundial. As duas potências, mais a França, tinham o poder econômico e militar necessário para obrigar a Alemanha, sob governo nazista desde 1932, a cumprir os tratados assinados ao final da I Guerra Mundial. A fim de evitar um novo conflito, porém, optaram por não intervir, dando aos alemães a possibilidade de reconstituir as Forças Armadas, reativar a indústria e a pesquisa bélicas, participar de maneira direta da Guerra Civil Espanhola, quando colocaram em teste o que havia de mais moderno na tecnologia de guerra alemã, expandir suas fronteiras e posicionar suas tropas em locais estratégicos, o que explica a facilidade com que a Alemanha conquistou a maior parte da Europa logo no início da II Guerra Mundial. Assim, a Carta do Atlântico de 1941 é um marco na história dos confrontos geopolíticos, diretos e indiretos, uma vez que duas das maiores potências da época reconhecem que a não-violência levou à explosão de uma violência com um número muito maior de vítimas do que haveria caso a Alemanha sofresse uma intervenção militar já na década de 1930.
Voltemos ao senso comum. A violência não é o melhor caminho para resolver conflitos, porque tende a gerar mais violência. No entanto, temos aqui dois exemplos muito claros do quanto ela pode ser necessária. No caso da Revolução Russa, a ação violenta dos revolucionários foi fundamental para pôr fim a uma longa série de injustiças que fazia um número igualmente grande de vítimas fatais, mas apenas de um dos lados do conflito. Já na II Guerra Mundial, o empenho unilateral para evitar a guerra acabou exatamente por criar as condições necessárias para que a guerra viesse. Não é caso de questionar o valor da paz, mas de se pensar que a paz nada vale se ela protege uma situação injusta que só pode ser enfrentada com violência, especialmente quando o lado injusto está disposto a usar da violência para preservar a injustiça.
Escrito por Makoto® às 11:39:54
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