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SAPERE AVDE VIII
OLHAR BRASILEIRO SOBRE A TERRA DO SOL NASCENTE NO SÉCULO XIX
Há 100 anos, desembarcavam em Santos os primeiros imigrantes japoneses, trazidos pelo navio Kasato Maru, originalmente um navio-hospital da marinha russa que foi tomado pela marinha japonesa durante a Guerra Russo-Japonesa. Depois de 52 dias no mar, os 781 imigrantes seriam encaminhados à Hospedaria dos Imigrantes em São Paulo e, de lá, seguiriam para as fazendas de café, onde esperavam fazer vida fácil. Na época, o Japão já enviava contingentes maiores de imigrantes para outras partes do mundo, principalmente EUA e Peru, a fim de reduzir a população no arquipélago e restaurar o equilíbrio alimentar, já que a guerra contra a Rússia, apesar de vitoriosa, deixara a economia japonesa em dura situação.
O tratado de amizade entre Brasil e Japão fora assinado bem antes, ainda no século XIX, embora um tanto a contragosto para o governo brasileiro, mais interessado em estreitar as relações com as nações européias e com os EUA. Esse desprezo pelo Japão se deve ao fato de que havia uma preocupação muito séria da elite brasileira em realizar um processo de branqueamento na população. Acreditava-se que a raça branca era geneticamente superior e o Brasil, com sua população predominantemente negra, indígena e mestiça, estaria condenado ao fracasso caso não se tornasse, rapidamente, um país branco. Nesse sentido, estabelecer um acordo com o Japão para transferência de população seria um atraso, pois acreditava-se que os únicos imigrantes aceitáveis eram de origem européia ou norte-americana. Ainda assim, o tratado foi assinado, já que outros países sul-americanos tinham tomado tal iniciativa. Com pretensões de ser a nação-líder da América do Sul, o Brasil não poderia se dar ao luxo de não assinar um acordo que seus vizinhos já tinham assinado.
O envio de camponeses japoneses para trabalhar nas fazendas brasileiras seria imediato, se a crise da virada do século não provocasse graves prejuízos aos cafeicultores paulistas (não confundir com a crise de 1929, que também afetou os cafeicultores, mas que aconteceu por motivos bem diferentes). O projeto seria, assim, adiado por cerca de 13 anos.
O que houve de lá para cá já foi amplamente divulgado pelos meios de comunicação. Então, não pretendo me alongar aqui. Apenas me preocupei em escrever algo que demonstre que a relação entre os dois países não é exatamente o exemplo de harmonia e respeito tão falada por esses dias, ao menos não em sua origem.
O inverno finalmente chegou. Agora espero que se demore por aqui mais um pouco, ao invés de ir embora rápido como aconteceu nos últimos anos. Sei que já falei muitas vezes isso, mas eu realmente funciono melhor no frio. Hoje, por exemplo, dar aulas foi muito mais tranqüilo, com o cérebro funcionando mais rápido. O estranho é que minha letra também fica muito esquisita, já que acabo escrevendo mais rápido. Vai entender…
Mudando de assunto, estava assistindo a um jogo da Suíça pela Eurocopa e me deparei com uma questão: como fica o hino nacional de um país que tem quatro línguas oficiais? Será que existem versões nas quatro línguas? E como será que fica o som de quatro línguas diferentes cantando a mesma música ao mesmo tempo? Acho que só indo lá para descobrir.
Ainda estou pensando se escrevo sobre imigração japonesa. Estamos completanto um século aqui e acho que um historiador de origem nipônica não pode deixar passar a data em branco, ainda que o Brasil inteiro à essa altura já esteja saturado de tanto ouvir sobre o assunto. Se escrever, farei isso daqui a dois dias, no aniversário mesmo.
Último assunto do dia, os professores da rede estadual estão em processo de greve. Em nossa escola, ainda estamos tentando chegar a algo próximo de um consenso. Seja como for, minha posição é muito simples: não acredito mais em grandes sistemas políticos e sou contra 2 dos 3 pontos principais do discurso dos grevistas. Ao mesmo tempo, entendo que não temos, como classe profissional, outras possibilidades de luta, de modo que a greve se faz necessária. Mas estou realmente dividido, uma vez que não considero aceitável abrir mão de minhas convicções políticas e fazer parte de uma massa que será manobrada pelos sindicatos, mas tampouco considero aceitável o modo como o Estado tem gerenciado a educação pública e tratado os professores. Tenho a impressão de que qualquer que seja a minha escolha, vou trair alguém.
A coluna em que faço reflexões a partir do futebol andou um bocado parada, ainda que eu continue acompanhando todos os jogos possíveis pela TV ou pelo rádio (e, muitas vezes, pelos dois ao mesmo tempo para pegar jogos diferentes) e que o nobre esporte bretão seja um dos assuntos mais comuns por aqui. E eu nem sei dizer muito bem de onde é que veio todo esse interesse pelo futebol, já que eu nunca liguei muito quando era criança (sempre preferi basquete). O fato é que cada vez mais me percebo um apaixonado.
Uma das coisas que mais me interessa no futebol é seu modo de representar a vida. Com o futebol, aprendemos sobre vitória e derrota, sucesso e fracasso, justiça e injustiça, competência e sorte, bravura e covardia, lealdade e mesquinharia e tantas outras antíteses que se colocam o tempo todo em nosso caminho. É bem verdade que podemos aprender sobre tudo isso sem o futebol, mas ele torna todos esses conceitos muito mais fáceis de entender.
Agora já se passaram duas semanas desde que vi a final da Liga dos Campeões da UEFA. Embora eu veja o Chelsea como um time mais encaixado, me senti na obrigação de torcer pelo Manchester United, já que sou contra a idéia de milionários russos de fortuna com origem duvidosa comprarem times de futebol fora de seu próprio país. E não é tanto pelas suspeitas de que o Chelsea seja usado para lavagem de dinheiro. Isso também conta, claro, mas é principalmente porque o Manchester consegue aliar um bom esquema de marcação com uma postura ofensiva, algo que não se vê com facilidade no futebol inglês. (É verdade que o campeonato inglês é totalmente globalizado, aliás, como qualquer campeonato europeu, mas isso é uma outra história). Foi um jogo de encher os olhos, daqueles de empolgar qualquer um. Fiquei feliz por haver prorrogação e decisão nos pênaltis.
A eliminação do São Paulo pelo Fluminense na Libertadores eu acompanhei pelo rádio. Lamentei muito não ter uma TV por perto na hora. De qualquer modo, a impressão que tenho é de que esse time do São Paulo foi até longe demais. Falta ligação entre o meio e o ataque, o que torna o time refém dos cruzamentos da lateral. O time chuta pouco e, de modo geral, só faz gol quem tenta. O São Paulo tem tentado muito pouco e muito mal. Não creio que vá ficar muito tempo na zona de rebaixamento, mas também não vejo o time pegando uma das vagas para a Libertadores. No máximo, Sul-Americana e olha lá.
Também emocionante foi acompanhar as semifinais da Copa do Brasil. Não lembro de já ter visto as duas vagas numa final serem definidas nos pênaltis. E, se alguém quer entender como alguém pode passar de herói a vilão (ou o contrário) rapidamente, esses dois jogos são excelentes exemplos. No Morumbi, o goleiro Felipe se redimiu pela falha no gol do Botafogo ao defender o último pênalti, bem batido, diga-se de passagem. Já em São Januário… ALGUÉM ME EXPLICA COMO AINDA DEIXAM O EDMUNDO BATER PÊNALTI???!!!
Ainda estou esperando por um jogo que me faça chorar de alegria. De tristeza eu já chorei em 86, com os pênaltis perdidos de Zico e Sócrates e pela bola que bateu nas costas de Carlos e entrou. Naquele tempo, eu era mais patriota no sentido futebolístico da palavra. Esses quatro jogos que comentei ainda não me fizeram chorar, mas certamente me deixaram muito agradecido pela existência dessa coisa mágica que é o futebol.
Filipe Makoto Yamakami, 29 anos, professor de História e Geografia na rede pública estadual, músico e escritor nas horas vagas, residente em São Paulo, SP, Brasil, protestante praticante e ativo, social-democrata (órfão), perdidamente apaixonado por Anna Carolina Bittencourt Russo.